Tekhné - História da Arte


In: Caetano E. P. Araújo; Francisco Inácio de Almeida; Ivan Alves Filho;. (Org.). Política Democrática. 13 ed. Brasília: Fundação Astrojildo Pereira, 2005, v. 1, p. 165-169.

 

Humanidade direciona a educação

 

Daniela Hollanda*

 

Nove dias antes de sua morte, Emmanuel Kant recebeu a visita de seu médico.  Velho, doente e quase cego, levantou-se da cadeira e ficou em pé, tremendo de fraqueza e murmurando palavras ininteligíveis.  Finalmente, seu fiel acompanhante compreendeu que ele não se sentaria antes que sua visita o fizesse.  Este assim fez e, só depois de recobrar um pouco as forças, disse: ‘Das Gefühl für Humanität, hat mich noch nicht verlassen’ — ‘O senso de humanidade ainda não me deixou’.  Os dois homens comoveram-se até as lágrimas.  Pois, embora a palavra Humanität apresentasse, no século XVIII, um significado quase igual a polidez ou civilidade, tinha, para Kant, uma significação muito mais profunda, que as circunstâncias do momento serviram para enfatizar: a trágica e orgulhosa consciência no homem de princípios por ele mesmo aprovados e auto-impostos, contrastando com sua total sujeição à doença, à decadência, e a tudo o que implica o termo ‘mortalidade’. 

Emmanuel Kant

 

Como reza a lenda, o famoso filósofo de Königsberg, pouco antes de morrer, doente e debilitado, ainda fazia questão de demonstrar seu culto ao que chamou de “Humanität”, cuja etimologia remete ao latim “humanitas” que significa humanidade.  Contudo, o sentido deste vocábulo aponta para o fato de respeitar o outro, tratá-lo com cordialidade, enfim, civilidade.  É pensar na alteridade não como o desconhecido ou inimigo, e sim por empatia, como se estivesse no lugar do outro.  Assim, a civilidade revela grau de humanidade no relacionar-se, que, hodiernamente, entende-se também por cultura.  É possível constatar o grau desta em um povo por alguns gestos sintomáticos, os quais fazem parte do cotidiano como, por exemplo, o respeito aos idosos, a reverência ao antigo, o cuidado com os animais e outras criaturas etc.  São estes “índices” que revelam os valores que permeiam aquela estrutura social.  Caso que ilustra com perfeição isso é o de Maquiavel, que, à noite, quando reservava-se o prazer de ler os antigos, vestia-se com roupas mais elegantes em sinal de respeito.



 Escrito por Daniela Hollanda às 11h33 [   ] [ envie esta mensagem ]




No século XIX, na Europa surgiu a idéia de preservação do patrimônio construído.  Com o Romantismo, movimento artístico e literário, aparece, no Velho Continente, a nostalgia de tempos idos, como os do Medievo.  É nesta atmosfera que autores como Sir Walter Scott e Victor Hugo criam seus personagens, cujas vidas transcorrem na Idade Média, como é o caso de Ivanhoé e de Quasímodo, respectivamente.  Em face disso, alguns artistas, teóricos, arquitetos, dentre outros, começaram a tentar preservar esta memória na concretude — castelos, igrejas etc — por motivos afetivos, como se representassem uma era melhor, mais cavalheiresca e de cunho nacionalista.  Trata-se de período de “consagração” da identidade nacional por meio das edificações.  Os pioneiros desta atitude foram John Ruskin, William Morris, na Inglaterra, e Eugene Emmanuel Viollet-le-Duc, na França.

Embora haja mais de um século do surgimento da noção de preservação, cem anos ainda é muito pouco no tocante à mudança de mentalidade.  Modificar o comportamento demanda investimento em educação a longo prazo.  Isso pode ser comprovado observando-se países mais desenvolvidos, onde algumas perdas irreparáveis deram-se no que tange aos monumentos, a saber: a Bélgica perdeu a Maison du Peuple, obra de Horta, demolida em 1968; a França, Les Halles, de Baltard, em 1970; o Japão, o Hotel Imperial, do genial Frank Lloyd Wright.  Cabe destacar que, neste último caso, apesar do Hotel ter resistido bravamente aos sismos que danificaram enormemente a cidade de Tóquio, foi ao chão em 1968.  Infelizmente, estes descalabros não são apanágio somente de outros países, pois os brasileiros, em seu afã imitativo, não se guardaram de copiar os maus exemplos...

Poucas vezes, viu-se, no Brasil, o interesse em preservar bens imóveis de valor histórico e artístico em detrimento dos valores econômicos.  Exemplos de ontem e hoje destes trágicos momentos para a cultura e identidade de um povo podem ser citados à guisa de recordação.  A primeira casa modernista do Rio de Janeiro, na rua Tonelero esquina com Paula Freitas, projeto de Gregori Warchavchik, foi demolida, na década de noventa, para dar lugar a um edifício de luxo, cuja grande qualidade vem a ser apenas o fruto da especulação imobiliária.  Observe-se que esta casa, além de seu valor artístico, foi palco de conversas entre Frank Lloyd Wright — quando de sua passagem pelo Rio —, Lúcio Costa e o próprio Warchavchik.  Junte-se a este exemplo de descaso com a memória, a lamentável derrubada do Palácio Monroe.

Casa da Cascata, de Frank Lloyd Wright



 Escrito por Daniela Hollanda às 11h26 [   ] [ envie esta mensagem ]




Palácio Monroe, demolido

 

O Palácio Monroe, um dos prédios que compunha o conjunto do ecletismo, no final da antiga Avenida Central — atual Rio Branco —, também foi vítima desta sanha “progressista” da modernidade que destrói, consoante o sociólogo polonês Zigmunt Bauman.  O edifício, que fora planejado para a Exposição Internacional de Saint Louis, em 1904, recebeu o grande prêmio, representativo do primeiro reconhecimento da arquitetura nacional no exterior.  Seu projeto fora elaborado com bastante rigor e cuidado para que pudesse ser remontado posteriormente na cidade do Rio de Janeiro.  Essa construção do ecletismo do início do século XX, também foi alvo do olho clínico do célebre diretor Alfred Hitchcock para as memoráveis cenas do filme “Interlúdio” (“Notorious”).  Esta mesma modernidade roubou-nos ainda outros belos e interessantes monumentos, como as igrejas de São Pedro dos Clérigos e de Bom Jesus do Calvário — ambas tombadas —, apenas para citar exemplos só no Rio de Janeiro!  Não é possível esquecer que o marco de fundação da cidade, o qual estava no Morro do Castelo, mudou de endereço...  Tampouco pode ser esquecido o fato do Campo de Santana ter perdido parte da traça de autoria de Glaziou...

Faz-se mister ter em mente que os absurdos aos quais se alude, e que afetam o patrimônio nacional, são oriundos da omissão de autoridades, quando não de sua franca colaboração — e, tristemente, ainda ocorrem no século XXI.  Exemplos recentes e marcantes são os incêndios da igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Pirenópolis (GO), o de um casarão histórico em Ouro Preto (MG) e o da igreja das Mercês, em Sabará (MG), sem falar do descaso em relação aos recentes “desaparecimentos” de bens móveis, tais como roubos de mapas, gravuras e fotografias do Palácio do Itamaraty, fotografias raras na Fundação Biblioteca Nacional, ambos no Centro do Rio, o desaparecimento recente de duas colunas torsas de cinco metros de altura da igreja de Nossa Senhora do Pilar, em Duque de Caxias, e o incêndio do acervo da biblioteca do Congresso, em Brasília.  No contexto da enumeração desses fatos, é conveniente registrar que o Rio de Janeiro ocupa o primeiro lugar no ranking dos Estados da Federação com maior número de peças roubadas: são 523, ocupando Minas Gerais o segundo posto, com 174 obras roubadas, e a Bahia em terceiro, com 83.  Todavia, por que estes fatos ocorrem?  Dá-se o caso de não haver conscientização para que as pessoas possam zelar pelo patrimônio que é de todos?

O caso da São Pedro é emblemático: apesar da mobilização de intelectuais, a argumentação oficial que, supostamente estaria defendendo o “interesse público”, derrubou todos os entraves para demolir a igreja.  Embora famosas vozes se fizessem ouvir em prol daquela, a maioria permanecia na sua inerte indiferença, e nada fizeram, porque parte significativa da mídia apoiava e justificava a atitude positivista e, portanto, “progressista”, de derrubar este marco artístico e histórico do Rio de Janeiro.  A idéia “obsessiva”, então, era remodelar completamente a cidade, com o afã destrutivo-criador do qual fala Bauman.  Evidentemente, isso acarretaria a conseqüente supervalorização dos lotes.  Note-se que essa valorização, em si, não é uma coisa má, mas o é quando coloca o capital acima da cultura.  O juízo de valor foi equivocado.  Isto é, a hierarquia dos valores está equivocada, pois não pode haver a valorização do econômico em detrimento do cultural, enfim, do “humanitas”.

 Escrito por Daniela Hollanda às 11h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




Ora, faz-se mister, pois, conscientizar a população de que o patrimônio histórico, artístico e cultural é meu, é seu, é nosso, e deve ser preservado para as gerações futuras.  Neste ponto da questão, não é preciso inventar a roda!  Basta recordar as lições de grandes filósofos: para Platão, dependia diretamente da educação dos jovens a perfeição da sociedade e, por isso, sua recusa a certos tipos de arte que julgava contingentes; Aristóteles, tutor de Alexandre, o Grande, creditava exemplo advindo do aprendizado, daí sua defesa da imitação — mimesis —; Santo Tomás de Aquino pregava o hábito como de capital importância, já que este revelava a disciplina necessária para se levar a cabo a tarefa educativa, e, posteriormente no século XX, Jean Piaget a “exercitação” como a formação dos hábitos.  Assim, desde a Antiguidade, tem-se na educação o atributo das sociedades que progridem.  Por conseguinte, não se trata de nova receita!  Mas, com certeza, resulta extremamente eficaz, como o exemplo moderno da Coréia, a qual investiu milhões nesta seara com intuito de colher valiosos frutos.  Com efeito, a educação é meio de transmissão valores a longo prazo.  E quais são estes?  Os monumentos recordam quem se é e o que se deve ser, e lembram afetivamente as pessoas do seu passado, projetando futuro melhor.  Assim, monumento, cuja raiz vem do latim “monere” e quer dizer lembrar, é a construção que, por meio da afetividade, atualiza as lembranças.  Ou seja, tornam vivas as recordações, usando a ligação afetiva, como no caso do carinho que nutri-se pelo lugar, onde se passou a infância, fez-se a primeira comunhão, estudou-se, deram-se os primeiros folguedos etc.   Conscientizadas sobre o valor dos monumentos —como significantes portadores de significados —, poderiam lutar por sua preservação.  

Deve-se investir em educação para que a cultura possa, enfim, respirar neste país.  Educar faz parte de um processo civilizatório, e valorizar a identidade deste acolhedor e alegre povo, instrumentalizada pelo patrimônio histórico, fortalece a união e a solidariedade entre os brasileiros.  Chama-se a isso educação patrimonial.  E como implementá-la?  Aulas teóricas e práticas de história, diferentemente do ensino de caráter puramente tradicional são a solução.  Assim, os estudantes de sétima série em diante poderiam, desde logo, conhecer melhor sua cidade e identificar suas raízes históricas nos prédios por esta espalhados.  Por exemplo, no Rio de Janeiro, durante as aulas de história, quando o tema fosse a chegada da Corte portuguesa ao Brasil e suas conseqüências, os alunos aprenderiam os aspectos correlatos, como as artes e a arquitetura implantadas aqui pela Missão Le Breton.  Para fixar este aprendizado teórico ocorrido em sala, visitariam a Casa França-Brasil, e redigiriam relatórios, sujeitos à nota, sobre os prédios e a visita.  Deste modo, proporcionar-se-iam benefícios como a melhor fixação da matéria; a visão espaço-temporal dos fatos e suas implicações, isto é, a relação de causa e efeito; e a “equilibração — processo de aprendizagem, que constitui-se na busca sucessiva do equilíbrio após cada desequilíbrio sofrido —.  Esta última, segundo Piaget, é a contínua tentativa do homem de manter-se em equilíbrio, buscando as soluções ao que desconhece, procurando saber aquilo que ignora, pois o educador suíço parte do pressuposto que é incômodo desconhecer.  Educando, estar-se-ia plantando a semente para que mais brasileiros possam zelar pelas riquezas artísticas e culturais, e os valores que estariam sendo enraizados na sociedade seriam aqueles mesmos que o bom e velho pensador Emmanuel cultivava: os de “humanitas”.

 

*Daniela Hollanda é pós-graduada pela PUC, Uerj e FGV.



 Escrito por Daniela Hollanda às 11h14 [   ] [ envie esta mensagem ]


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